domingo, 14 de setembro de 2014

Logística, Infraestrutura e Desenvolvimento - Parte I

LOGÍSTICA, INFRAESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO
Parte I

“É a infraestrutura, estúpido!”



Não é preciso grandes análises utilizando as técnicas da econometria para demonstrar de forma irrefutável, o impacto que a infraestrutura tem na geração de riqueza e desenvolvimento de um Pais. A relação entre a infraestrutura e o crescimento econômico está bem estabelecida tanto a nível empírico quanto nas análises teóricas.
Os investimentos em infraestrutura afetam substancialmente a transferência de bens e serviços, permitindo por via de consequência menores custos no escoamento de insumos e produtos em face de um menor custo logístico de transferência desses para os mais diversos pontos de consumo.
Ferreira [1] fazendo uma análise retrospectiva do período 1950/1979, comenta que. “...no Brasil, a capacidade nominal instalada de energia elétrica aumenta mais que 17 vezes entre 1950 e 1979, o número de telefones instalados aumenta 14 vezes no mesmo período e os quilômetros de estradas pavimentadas em 36 vezes. Ao mesmo tempo o PIB cresce 8,6 vezes e o PIB per capita cerca de quatro vezes. ...O impacto desta expansão observada na infraestrutura da região sobre o crescimento econômico, como indica uma vasta literatura sobre o tema, foi provavelmente forte
Os estudos realizados por Easterly e Rabelo (op. cit. Ferreira) demostraram que “investimentos em transporte e comunicação   se mostram consistentemente correlacionados com o crescimento” (coeficiente de correlação: 0,59 (Transporte) e 0,66 (Comunicação). Cabendo ressaltar, conforme retrata Bertussi e Ellery R. [2] que os gastos em infraestrutura de transporte são mais produtivos nas regiões menos desenvolvidas do pais (Norte, Nordeste e Centro-Oeste).
O gráfico da figura 2 apresenta a evolução das taxas percentuais do PIB brasileiros investidos no setor de transporte, uma das principais operações da logística.


Figura 2 - Elaborada pelo autor – fonte:  Bertusi, G.L. ; Ellery, Jr.

Comparando essas taxa entre Países, em 2003, apenas para um registro de seu impacto, verifica-se que enquanto a China investiu 4%, a Tailândia 3,9% e o Chile 1,96% o Brasil investiu um “magro” 0,53% !
Olhando sobre o prisma de alternativas entre modais de transporte e mesmo do uso de uma logística mais sustentável, a maior parte dos investimentos brasileiros no setor de transporte ocorreram na construção de rodovias que absorveu, mais de 60% dos recursos investidos no setor.
Neste aspecto vale registrar que tal processo acaba refletindo diretamente os custos logísticos, bastando citar que, em face de recentes problemas oriundos da secas, como mostramos em postagem nesse blog: ” ...enquanto que o transporte pela hidrovia tem um custo médio de R$ 45,00 por tonelada transportada, no modal rodoviário esse valor se eleva para R$ 175,00 por tonelada. A eficiência operacional também tem grandes reflexos, bastando verificar que um comboio fluvial de 100 mil toneladas tem a mesma carga transportadas por 200 caminhões!”  - Estiagem e reflexos na logística – postagem: 11/08/2014.
Os sistemas de transporte, em seu diversos modais, é elemento essencial da infraestrutura econômica de um País, permitindo o escoamento de insumos e produtos entre a manufatura e os centros de consumo. A ineficiência nesse sentido se faz presente, cujos reflexos se destacam por diversos ambientes econômicos, como por exemplo os gargalos que estrangulam a exportação de grãos brasileiros (Custo Brasil – postagem: 04/06/2014).
O segundo modal priorizado pelos parcos investimentos em infraestrutura no Brasil foi o ferroviário, apesar deste ter um custo de cerca de 25% , se comparado com o custo do modal rodoviário. O mais grave: o Brasil sendo um País de dimensões continentais, opera fundamentalmente através do modal rodoviário, quando deveria privilegiar o uso de ferrovias para os grandes deslocamentos!
Cabe lembrar que o planejamento, estudo e construção de novas ferrovias cabe ao DNIT que também é o responsável pelas melhorias desse modal, principalmente no que tange a transposição ferroviária nos grandes centros urbanos, no sentido de adequação da capacidade operacional e promoção da segurança.
Outra aspecto do problema que essa perversa forma de investir em infraestrutura acaba promovendo é a concentração espacial dos setores produtivos com seus reflexos negativos tanto para as regiões carentes e sustentabilidade pois o impacto ambiental se torna muito mais presente em face desses estruturas produtivas estarem localizadas em grandes centros urbanos, muito especialmente no eixos Sul-Sudeste - Bruno e Silva [3]!
Apesar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ter em seu bojo grandes projetos de melhoria da infraestrutura com iniciativas das chamadas PPP´s (Parcerias Público-Privadas), como mostra o fluxo simplificado da figura 3, a insegurança jurídica nesse campo aliadas ao controle rígido das tarifas nas concessões acabam dirigindo o fluxo de investimentos privados para o setor financeiro, como vem mostrando os estudos empíricos sobre o tema, em face principalmente da liquides desses ativos!

Figura 3 – Infraestrutura – Visão Geral
Parceria Público-Privada (PPP)
Fonte: Ricardo. P. [4]

Em estudos mais recentes, o Anuário Exame de Infraestrutura 2009-2010 mostra que a taxa de investimentos na economia brasileira em relação ao PIB (Produto Interno Bruto), ainda, deixa muito a desejar, em comparação com outros países. “No ranking mundial, o Brasil ocupa a décima colocação, em termos de montante investido (US$), onde se tem as seguintes pontuações: 1º - China com 43% (US$ 2.111 bilhões), 2º - Estado Unidos com 12,2% (US$ 1.733 bilhões), 3º - Japão com 20% (US$ 1.080 bilhões), 4º - Alemanha com 18,5% (US$ 608 bilhões), 5º - França com 20,8% (US$ 560 bilhões), 6º - Índia com 33,3% (US$ 426 bilhões), 7º - Itália com 19,1% (US$ 409 bilhões), 8º - Espanha com 26,6% (US$ 383 bilhões), 9º - Reino Unido com 14,9% (US$ 329 bilhões) e o 10º - Brasil com 16,7% (US$ 261 bilhões)”. (op. Cit – Pimentel [4])
De um lado, a agência de classificação de riscos Standard & Poor´s calculou que o volume de recursos necessários em infraestrutura para o período 2011/2016 atingem o montante de US$ 500 bilhões, incluindo nesses, os destinados aos eventos esportivos como Copa do Mundo (quando o Brasil tomou uma vergonhosa goelada da Alemanha de 7 x 1) e Jogos Olímpicos em 2016.
De outro, segundo a revista Exame [5], estudos realizados pelo Banco Mundial fazendo comparações em 155 países com mais de 1.000 operadores logísticos internacionais demostraram que o Brasil conseguiu um upgrade na classificação quanto a infraestrutura que passou de 61º para o 41º. Porém, é bom lembrar que o Brasil se encontra entre as maiores economias do planeta!
O conclusão que se chega é que é necessário acabar com o ciclo vicioso com o qual a política brasileira convive, qual seja, um processo de desenvolvimento dentro de um modelo extremamente perverso, no velho estilo “stop and go”!

Fontes:
  1. Ferreira, P. Cavalcanti in Um estudo sobre infra-estrutura: impactos produtivos, cooperação público-privado e desempenho recente na América Latina – disponível em http://www.fgv.br/professor/ferreira/InfraAmeLatCepal.pdf - acesso 13/09/2014.
  2. Bertusi, G.L. ; Ellery, Jr., R. in Infraestrutua de transporte e crescimento econômico no Brasil – disponível em Journal of Transport Literature - Submitted 12 Sep 2011; received in revised form 2 Dec 2011; accepted 26 Jan 2012 - Vol. 6, n. 4, pp. 101-132, Oct 2012.
  3. Bruno. M; Silva, R.M.B in Análise e Proposta – Desenvolvimento econômico e infraestrutura no Brasil: dois padrões recentes e suas implicações – Friedich Ebert Stiftung – Nº 38 – dezembro de 2009.
  4. Ricardo, P. in Módulo Parcerias Público-Privadas - Curso Integrado sobre Contratos Administrativos, Licitações Públicas e Convênios Federais –PPT.
  5.  Pimentel, N. in Investir em infraestrutura para o Desenvolvimento Econômico Sustentável – JCAN em 15 e 16 de maio de 2010.
  6. Revista Exame Edição 966: Nº 7 de 21. 04. 2012


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Paulo Sérgio Gonçalves é engenheiro, M.Sc. em engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, professor do IBMEC/RJ e  autor das seguintes obras didáticas:
  • Administração de Estoques – Teoria e Prática, em coautoria de E. Schwember – Editora Interciência;
  • Administração de Materiais – 4ª. Edição – Editora Campus/Elsevier;
  • Logística e Cadeia de Suprimentos – O Essencial – Editora Manole.

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